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Cuiabá e Várzea Grande bebem da mesma água! Até quando vão conviver com o lixo?

*Por Alberto Scaloppe

Todos os dias, milhares de moradores de Cuiabá e Várzea Grande abrem a torneira sem imaginar que o destino do lixo produzido na região pode afetar diretamente a qualidade da água que chega às suas casas. Parece um problema distante, escondido atrás de caminhões de coleta e aterros sanitários. Não é. Trata-se de uma questão que impacta a saúde pública, o meio ambiente e o futuro de toda a população metropolitana.

A situação dos resíduos sólidos em Mato Grosso revela uma realidade preocupante. Dados do Ministério Público mostram que mais da metade dos municípios do estado ainda descumpre a Política Nacional de Resíduos Sólidos. Em pleno século XXI, lixões continuam funcionando onde deveriam existir soluções ambientalmente adequadas.

O problema não é apenas legal ou administrativo. É uma ameaça concreta. Cada tonelada de lixo descartada de forma inadequada aumenta o risco de contaminação do solo, dos córregos, dos rios e dos lençóis freáticos. Em outras palavras, o lixo que ignoramos hoje pode se transformar na água contaminada que consumiremos amanhã.

A contradição é evidente. Enquanto a Secretaria de Estado de Meio Ambiente informa que boa parte dos resíduos gerados em Mato Grosso já segue para aterros licenciados, a infraestrutura continua concentrada nos municípios com maior capacidade financeira. As cidades menores, sem recursos suficientes, enfrentam dificuldades para cumprir as exigências legais e ambientais.

Na Região Metropolitana do Vale do Rio Cuiabá, essa realidade é ainda mais sensível. Apesar da existência de aterros aptos a receber os resíduos produzidos pelos municípios, parte do lixo ainda encontra destino em áreas inadequadas. O resultado é um passivo ambiental que cresce silenciosamente e cujos custos recaem sobre toda a sociedade.

A boa notícia é que as soluções existem. O Plano Estadual de Resíduos Sólidos de Mato Grosso aponta caminhos concretos por meio da regionalização dos serviços e da formação de consórcios intermunicipais. Compartilhar infraestrutura, reduzir custos e ampliar a eficiência operacional não é apenas uma alternativa técnica; é uma necessidade econômica e ambiental.

Mas nenhuma política pública prospera sem vontade política. Por isso, o debate sobre resíduos sólidos precisa ocupar lugar de destaque nas eleições de 2026. Os futuros governantes devem apresentar propostas claras para transformar os instrumentos já existentes em ações concretas, capazes de encerrar definitivamente a era dos lixões e promover uma gestão moderna e sustentável dos resíduos.

Também é fundamental fortalecer os espaços de governança metropolitana, especialmente o Conselho de Desenvolvimento Metropolitano do Vale do Rio Cuiabá. É nesse ambiente que poder público, setor produtivo e sociedade civil podem construir consensos e definir prioridades para investimentos que impactam milhões de pessoas.

Cuiabá e Várzea Grande possuem histórias diferentes, desafios distintos e administrações independentes. Mas compartilham algo muito maior: o mesmo rio, a mesma água e o mesmo destino ambiental. Quando um município falha na gestão do lixo ou do saneamento, as consequências ultrapassam suas fronteiras administrativas e atingem toda a região.

A preservação do Rio Cuiabá não pode ser tratada como bandeira de ocasião ou promessa de campanha. Trata-se de uma responsabilidade coletiva e permanente. Afinal, não existe desenvolvimento sustentável onde a água está ameaçada, nem qualidade de vida onde o lixo continua sendo tratado como um problema invisível.

O verdadeiro desafio não é saber o que precisa ser feito. Os diagnósticos já foram elaborados e as soluções estão disponíveis. A questão que permanece é outra: até quando vamos aceitar que cidades que bebem da mesma água continuem convivendo com práticas que colocam em risco o seu futuro?

*Alberto Vieto Machado Scaloppe é advogado, atua nas áreas ambiental e minerária e preside a Comissão de Direito Minerário e Base Mineral da OAB-MT.

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