Entenda como e por que Juan Guaidó chegou à presidência da Venezuela

EFE

Juan Guaidó, de 35 anos, é deputado do Voluntad Popular, partido de López

Na quarta-feira (23), em meio a uma onda de protestos contra Nicolás Maduro, o presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, Juan Guaidó, considerado o principal líder da oposição, declarou-se presidente interino do país. As manifestações contra a ditadura chavista (e as consequentes repressões), no entanto, não são nada recentes. Por que, então, isso está acontecendo somente agora? E quais as chances de, desta vez, a oposição sair vitoriosa? Entenda aqui os principais pontos desse movimento.

No início, divisão da oposição

Essa é a terceira vez em cinco anos que a oposição venezuelana sai às ruas contra Maduro. Em todos os atos, o governo respondeu com grande repressão e conseguiu diminuir as manifestações e desarticular sua força política. Apenas os atos de 2017, convocados para pressionar pela realização de um referendo revogatório do mandato do ditador, por exemplo, deixaram 165 mortos.

Na ocasião, os partidos que compõem a Mesa da Unidade Democrática (MUD) – que nunca foram coesos – se dividiram ainda mais sob qual rumo tomar depois que Maduro convocou uma Assembleia Nacional Constituinte para substituir, na prática, o Parlamento de maioria opositora. A oposição foi, assim, tornando-se cada vez mais enfraquecida.

Fortalecido pela desmobilização, o chavismo ampliou a perseguição a líderes da MUD. Alguns, como Julio Borges e Antonio Ledezma e David Smolansky, deixaram a Venezuela. Leopoldo López seguiu preso. Henrique Capriles perdeu os direitos políticos.

Agravamento da crise econômica

Ao mesmo tempo, no campo econômico, a crise se agravou com a imposição de sanções americanas às fontes de financiamento da Venezuela, o que, na prática, dificultou a exportação de petróleo e o refinanciamento e pagamento da dívida externa. Com isso, a hiperinflação saiu de controle, chegando em 2018 a 1 milhão por cento, segundo o FMI.

A escassez de alimentos e remédios ficou mais grave e se somou à deterioração da infraestrutura de serviços básicos, como água, luz e gás. Sem dinheiro em caixa para quase nada, o chavismo deixou às moscas a manutenção das empresas estatais que cuidam desses fornecimentos.

O maior problema diário dos venezuelanos se transformou em comer. Segundo a FAO, a fome no país triplicou entre 2016 e 2018. Com dificuldade de ter dinheiro para comprar alimentos cada vez mais escassos, o governo criou uma alternativa: o Carnê de la Pátria (Clap).

Documento universal, usado para retirada de alimentos de cesta básica importados de países como a Turquia, o Clap também é usado para registrar eleitores em processos eleitorais, o que, segundo a oposição, configura um mecanismo de fraude eleitoral.

Aparecimento de novas lideranças

Ao entrar em 2018, Maduro decidiu antecipar as eleições para o primeiro semestre, temendo que o agravamento da crise pudesse deteriorar ainda mais seu apoio nas bases chavistas. Com isso, o governo conseguiu, novamente, dividir a MUD. Enquanto a maioria dos partidos optou por boicotar a votação – caso de Capriles, López e Maria Corina Machado – a oposição menos radical, do ex-presidente da Assembleia Nacional Henry Ramos Allup e do chavista dissidente Henri Falcón, optou por participar do processo. Maduro foi reeleito, em eleição com muitas denúncias de fraudes, em maio.

Na virada do ano, com as principais lideranças opositoras presas ou no exílio, coube a um nome desconhecido do grande público assumir o comando da Assembleia – que, até então continua existindo formalmente, mas sem poderes reais. Juan Guaidó, de 35 anos, é deputado do Voluntad Popular, partido de López. Coube a ele liderar um novo plano, gestado, segundo analistas, tanto fora quanto dentro da Venezuela.

“Enquanto a oposição dentro da Venezuela é mais jovem e tenta encontrar canais para uma transição, a que está fora busca apoio internacional contra o chavismo”, explica Luis Vicente León, do Instituto Datanalisis.

Guaidó, inclusive, mudou o discurso tradicional da oposição, centrado no antagonismo ao chavismo. Falou em transição pacífica e ofereceu anistia a chavistas descontentes com Maduro, tanto no Exército quanto na burocracia estatal.

Por fim, o desafio de Guaidó

Nesse contexto, como nota o especialista em Venezuela do Washington Office on Latin American Affairs, David Smilde, observa-se mais um ponto relevante: a população tradicionalmente chavista começou a sentir para valer a crise. Não tanto pela falta de alimentos, subsidiada pelo Clap, mas com os cortes quase diários de luz, gás e água.

“O grande desafio de Guaidó é unir essa parcela da população à massa de classe média que tradicionalmente marcha com a oposição”, diz Smilde.

Fonte: Jovem Pan – *Com Estadão Conteúdo

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